Fortaleza, 300 anos: um dia inteiro para caber numa cidade infinita

Entre o azul que nunca termina e o concreto que insiste em subir, Fortaleza aprendeu a respirar com o
vento. Aos 300 anos, a cidade é feita de marés: de memória, de luta, de invenção cotidiana


Fortaleza nasceu de um forte erguido à beira-mar - o Forte de Nossa Senhora da Assunção - e de uma
geografia que sempre foi destino e desafio. Em 1726, quando se consolidava como vila, o que havia era
areia, algumas construções estratégicas e o Atlântico como horizonte permanente. O mar trouxe comércio, trouxe invasões, trouxe notícias do mundo. Trouxe também partidas e regressos. Ao longo de três séculos, a capital cearense deixou de ser ponto periférico do mapa colonial para se tornar metrópole pulsante, polo turístico, centro universitário, vitrine cultural do Nordeste. Cresceu em espiral, espichou avenidas, verticalizou bairros, multiplicou sotaques.


Mas Fortaleza continua sendo, essencialmente, vento. O vento que atravessa a Avenida Beira Mar e molda a paisagem; que balança as palmeiras do Centro; que espalha o cheiro de peixe frito nas barracas da Praia do Futuro; que entra pelas janelas antigas do Centro histórico. É uma cidade onde o sol não pede licença e onde a conversa nasce fácil. Onde o riso alto convive com as contradições urbanas, e onde a arte insiste em ocupar espaços, mesmo quando o concreto parece dominar.


Para celebrar os 300 anos, convidamos três nomes que traduzem diferentes camadas dessa Fortaleza
múltipla. A empresária Celina Hissa, fundadora da marca Catharina Mina, que transformou o saber
artesanal em negócio de impacto social; o músico, advogado e produtor Ricardo Bacelar, cuja trajetória
ecoa a força criativa da cidade; e a chef e empresária Lia Quinderé, que ajudou a projetar a gastronomia
cearense para além das fronteiras do estado. Perguntamos a eles: se tivessem um dia livre, inteiro, em
Fortaleza, como o viveriam da primeira luz da manhã ao silêncio possível da madrugada?


Celina Hissa: Fortaleza como construção sensível
Para Celina Hissa, Fortaleza é experiência tátil. É cidade que se percebe na textura do vento, na luz que
recorta fachadas, na renda que atravessa gerações. Seu roteiro não é apressado, é construído como quem costura.


Manhã
“O dia precisa começar com tempo.” É assim que ela sugere viver Fortaleza. Um café na Musa Padaria
Brasileira ou na Ciao da Padaria inaugura a manhã com ritual. O pão artesanal, o café passado com
cuidado, a conversa tranquila. Para Celina, esse é o retrato de uma Fortaleza contemporânea que aprendeu a valorizar processos e permanências.


Depois, ela convida a caminhar pela Avenida Beira Mar. “A cidade se revela na orla”, sugere. Ali estão
trabalhadores iniciando o dia, idosos fazendo alongamento, turistas fotografando, vendedores organizando barracas. No Mercado dos Peixes de Fortaleza, o mar se materializa. Escolher o peixe fresco e vê-lo ser preparado na hora é, para ela, uma forma direta de compreender Fortaleza: simples, intensa, sem excesso.


Tarde
Celina conduz o olhar para o centro histórico em transformação. A Pinacoteca do Ceará e a Estação das
Artes simbolizam uma cidade que reconhece seu patrimônio e o reinsere na vida contemporânea.
“Fortaleza está aprendendo a ocupar seus vazios”, parece dizer. Exposições, cinema, música e formação artística mostram que cultura também é política de futuro.


A tradição manual, tão presente em sua trajetória, ganha espaço no Centro das Rendeiras e na CEART.
Ali, a renda de bilro não é apenas ornamento, é memória viva, transmissão de saberes femininos,
resistência silenciosa ao tempo.

O Museu da Imagem e do Som do Ceará amplia essa experiência: tradição e tecnologia convivem,
mostrando que passado e inovação não são opostos.


Noite
Na gastronomia, Celina prefere lugares onde identidade e contemporaneidade dialogam. O Mar de Rosas e o Ciranda representam essa maturidade culinária.


Para o pôr do sol, ela sugere a Praia da Sabiaguaba. O encontro de rio e mar cria um cenário de
contemplação serena, quase uma pausa dentro da própria metrópole. Entre os lugares que ela guarda com carinho estão ainda o Rio Cocó, o Passeio Público e o Farol do Mucuripe.


Para Celina, Fortaleza é matéria em constante transformação e é preciso senti-la com tempo.


Lia Quinderé: Fortaleza como memória que se come
Para Lia Quinderé, Fortaleza é construída na mesa. A cidade se entende pelos ingredientes, pelas receitas transmitidas entre gerações e pela criatividade que transforma simplicidade em experiência.


Manhã
O dia começa no Molino. O café é momento de pausa, quase um ritual de organização dos pensamentos. Depois, a caminhada pela Avenida Beira Mar reforça que o mar é ingrediente permanente da cidade.


Tarde
Lia sugere mergulhar na história pelo Theatro José de Alencar, onde arquitetura e memória se encontram. A Estação das Artes revela a Fortaleza que investe na formação cultural.


Na Praia do Futuro, especialmente na Cala Playa, a cidade mostra sua energia expansiva: gastronomia,
música e convivência coletiva.


Noite
Entre os restaurantes indicados estão o NOM, o tradicional Kina do Feijão Verde e o Muá Tuá. Para Lia,
cada um representa um momento da gastronomia cearense: tradição, consolidação e inovação.


O pôr do sol na Ponte dos Ingleses é síntese democrática. Já o Parque do Cocó oferece respiro verde,
enquanto o Mercado Central de Fortaleza concentra artesanato e identidade regional.
Para Lia, Fortaleza é afeto servido à mesa.


Ricardo Bacelar: Fortaleza como ritmo e permanência
Para Ricardo Bacelar, Fortaleza é som. A cidade pulsa em diferentes frequências: do forró ao jazz, do
popular ao experimental.


Manhã
O café no Osmar da Tapioca conecta tradição e cotidiano. Depois, o passeio pelo Parque do Cocó lembra que a natureza ainda respira dentro da metrópole.


Tarde
O Museu da Fotografia Fortaleza amplia horizontes visuais. A Sorveteria Juarez resgata memória afetiva - sabores que atravessam gerações.

 

Noite
No Santa Praia, música e mar constroem atmosfera vibrante. O pôr do sol na Ponte dos Ingleses encerra o dia com contemplação.


A Barra do Ceará marca o ponto inicial da cidade. O Mercado São Sebastião mantém o cotidiano
pulsando sem filtros.


Para Ricardo, Fortaleza é composição aberta, e cada visitante é convidado a encontrar seu próprio ritmo.


Três séculos de vento, mar e permanência
Os três roteiros desenham um mapa afetivo que atravessa mercados, museus, teatros, praias, parques e restaurantes. Fortaleza é uma cidade que ri alto, que trabalha duro, que cria com o que tem. Que enfrenta suas desigualdades sem perder a capacidade de celebrar.


Em 300 anos, muita coisa mudou. Mas o vento continua soprando firme, como se lembrasse que tudo
começou ali, diante do mar, no entorno do Forte de Nossa Senhora da Assunção. Fortaleza é resistência e reinvenção. É calor e acolhimento. É contradição e encanto.


Ao fim de um dia livre, resta a sensação de que ainda há muito por descobrir. Porque Fortaleza não cabe em 24 horas, nem em três séculos. Ela é horizonte aberto, cidade que arde sob o sol e abraça na brisa. Cidade que canta, que cozinha, que tece, que toca. Cidade que permanece.

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